Mais empoderamento feminino e menos sonhos de princesa

Doutora em Linguística fala sobre a polêmica Escola de Princesas
empoderamento feminino

Foto: Istock

Em um cenário em que o empoderamento feminino e a própria noção de gênero são cada vez mais debatidos, a criação, a expansão e o relativo “sucesso” da Escola de Princesas são um verdadeiro contra-senso. 

Para entender do que se trata, a Escola de Princesas, criada em Belo Horizonte (MG) e recentemente inaugurada em São Paulo, destina-se a meninas de 4 a 15 anos que “sonham em se tornar princesas e fazê-las resgatar a essência feminina que existe em seus corações” (frase retirada do site da escola). 

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Tanto a existência de uma escola com essa proposta quanto as críticas que povoaram a internet nas últimas semanas devem nos fazer refletir sobre dois aspectos (para dizer o mínimo).

As princesas em si não são um problema

Há séculos, os contos de fadas existem, com princesas e príncipes, magia e mistério, moral da história e oposição entre o bem e o mal. Que criança nunca ouviu a história da Cinderela, da Branca de Neve e os Sete Anões, de João e Maria, entre tantas outras? 

Claro que a produção cinematográfica dessas histórias e a comercialização de produtos ligados aos contos de fada aumenta exponencialmente o impacto desse imaginário na vida das crianças. São festas infantis e quartos decorados com tema das princesas e outros personagens marcantes, além de presentes de Dia das Crianças e Natal ligados ao último filme do momento. 

Apesar de as histórias representarem um certo ideal de mulher ou de felicidade, como muitos pesquisadores têm defendido em seus levantamentos acadêmicos, a fase das princesas tende a perder força com o passar da idade. Eu mesma, em uma fase da infância,  assisti inúmeras vezes ao desenho “A Bela e a Fera” - e tinha uma Bela no meu criado-mudo. Mas nem por isso sonhava em viver aquele conto de fadas. E muito disso porque as histórias de princesas não eram a única fonte de entretenimento, havia outros livros, com outros temas, para eu ler em casa. Além disso, os modelos de mulher que temos na família ou que marcam nossa trajetória em diferentes momentos da vida me parecem mais significativos na formação das meninas-adolescentes-mulheres do que os contos de fadas. 

De fato, as princesas em si não são um problema. Esse imaginário da realeza ou do conto de fadas povoa inúmeras gerações e não determina, sozinho, a trajetória das meninas. No entanto, é preciso, sim, dar oportunidade para que elas possam conhecer outros tipos de histórias e enxergar outros modelos de mulheres, em narrativas ou no cotidiano.

Por que não empoderar as meninas desde a primeira infância?

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Ao mesmo tempo que, no Brasil, a Escola de Princesas se expande, no Chile, há uma Oficina de Desprincesamento, cujo objetivo é empoderar meninas entre 9 e 15 anos, dando a elas ferramentas para que cresçam livres de preconceitos e sejam capazes de mudar o mundo, sem depender de ninguém para isso. Entre as atividades, há aulas de defesa pessoal, oficinas para refletir sobre o que é ser mulher e acabar com os estereótipos criados pelos filmes de princesas. 

Esse exemplo chileno, oposto ao brasileiro, poderia ser seguido por aqui, até com uma ampliação interessante: promover oficinas de programação, tratar de empreendedorismo, de segmentos de atuação pouco explorados por mulheres, da não divisão de trabalho de homem ou de mulher, da possibilidade de conciliar carreira e vida pessoal, de mulheres marcantes na história da humanidade e seus feitos. E isso não se aplicaria apenas a meninas, mas a mulheres de todas as idades, que podem e devem ser empoderadas para fazer suas escolhas livremente e de forma consciente. 

Mas isso não precisa, necessariamente, integrar a educação formal. Na convivência familiar, nas histórias cotidianas que contamos, nos momentos de lazer, nos tipos de programas e viagens, ou nos brinquedos que oferecemos às crianças, damos exemplos de empoderamento feminino e liberdade de escolha – ou reforçamos estereótipos de princesas. 

O fato é que toda essa polêmica da Escola de Princesas nos revela que deve haver espaço para a diversidade e que reforçar um único modelo de mulher vai na contramão de tudo o que as mulheres conquistaram e de tudo que ainda há para conquistar. 

Por Vivian Rio Stella

Vivian Rio Stella

Vivian Rio Stella

Doutora em Linguística pela Unicamp e pós-doutora pela PUC-SP, Vivian Rio Stella é sócia-diretora da VRS Cursos, Palestras e Coaching (www.vrscursos.com.br), especializada em comunicação, liderança e empreendedorismo.

 

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